Telas prejudicam a escola? A resposta é depende
2 de setembro de 2026 · Bruna Rocha
“Tela baixa a nota” é uma frase confortável. Ela oferece um culpado imediato para uma angústia comum nas famílias, e sugere que confiscar o aparelho resolveria o boletim. O problema é que a evidência científica não sustenta essa explicação direta. Em uma revisão sistemática publicada no JAMA Pediatrics em 2019, com 58 estudos e 480.479 crianças e adolescentes de 4 a 18 anos, a relação entre tempo total de tela e rendimento escolar foi nula: nenhuma associação estatisticamente significativa. A ciência aqui é mais interessante do que o slogan.
O que a revisão de 480 mil estudantes encontrou
Quando os pesquisadores separaram as atividades, apareceram associações negativas pequenas: televisão e videogame se relacionaram a notas ligeiramente menores em matemática e leitura. Nada que autorize a ideia de que a tela destrói o rendimento escolar.
Há também uma limitação metodológica: os 58 estudos eram transversais, fotografando um único momento da rotina. Pesquisas assim não provam causa e efeito. Não dá para afirmar se o videogame fez a nota cair, se o estudante buscou refúgio no jogo diante de frustrações em sala de aula, ou se outros fatores, como sono irregular ou dificuldades não identificadas, afetaram ambos.
Uma hora de tela não é igual a outra
Tratar o uso digital como uma medida única distorce o quadro. Uma aula remota, uma chamada de vídeo com os avós, uma pesquisa escolar e uma sequência de vídeos curtos entram na mesma soma de horas, mas criam experiências cognitivas opostas.
Uma revisão de 100 estudos com 176.742 crianças pequenas, publicada no JAMA Pediatrics em 2024, concluiu que o contexto precisa ser avaliado além da contagem de tempo. Tipo de mídia, conteúdo, finalidade e companhia mudam a leitura. O uso acompanhado por um adulto se associou a melhores resultados cognitivos, enquanto conteúdos inadequados para a idade e televisão ligada ao fundo durante o dia se associaram a prejuízos. Esse ganho da presença do adulto apareceu nas medidas cognitivas, e não nas psicossociais.
A rota mais consistente passa pelo sono
Se a ligação direta entre horas de tela e notas é fraca, existe um caminho indireto muito melhor sustentado: o impacto sobre o sono.
Aprender exige sustentar o foco, reter instruções e controlar impulsos. Essas capacidades dependem de funções executivas, sobretudo de atenção e memória de trabalho. Quando o descanso diminui, essas funções falham primeiro. Em um experimento com 32 crianças de 8 a 12 anos, quatro noites com uma hora a menos de sono bastaram para produzir queda mensurável em memória de trabalho, atenção e regulação emocional. Abordei esses mecanismos no post sobre funções executivas na infância e detalhei a relação com aparelhos no artigo sobre telas e sono na infância e adolescência.
No campo observacional, um estudo de 2025 com 54.102 estudantes do oitavo ano em 717 escolas de Xangai, na China, observou que dormir cerca de 8 horas esteve associado ao melhor desempenho escolar, especialmente em matemática e ciências. O autor ressalta que se trata de pesquisa observacional sob forte cobrança escolar. A convergência é clara: quando a tela atrasa o sono, o estudante chega à aula sem recursos atencionais para aprender. O aparelho não precisa derrubar a nota diretamente, porque a privação de sono já faz isso.
Multitarefa não é eficiência
O segundo caminho relevante é a interrupção. Alternar entre a lição, uma notificação e um vídeo curto cobra um custo cognitivo a cada troca. É preciso reconstruir o raciocínio e lembrar onde a tarefa havia parado. O tempo dedicado parece longo, mas a retenção cai e o cansaço aumenta.
Em pesquisas com jovens monitorados por câmeras e sensores, a multitarefa com telas perto de dormir foi a prática mais associada à perda de sono. Na rotina de estudos, a dinâmica se repete: fragmentar a atenção desgasta o estudante sem gerar rendimento.
O que costuma ajudar na rotina
Ajustes simples no ambiente funcionam melhor do que proibições drásticas:
- Definir blocos curtos de estudo com notificações pausadas, intercalados com pausas reais sem telas.
- Guardar o celular em outro cômodo durante o dever de casa, pois a proximidade do aparelho disputa a atenção mesmo quando virado para baixo.
- Estabelecer um horário de encerramento digital na casa, desligando telas pelo menos uma hora antes de dormir.
- Distinguir o uso instrumental do recreativo, já que pesquisar para a escola e rolar o feed cumprem papéis diferentes.
Oscilações de rendimento acontecem ao longo do ano e uma nota baixa em uma prova difícil não indica um problema duradouro. O sinal de alerta surge quando a desorganização, o esquecimento recorrente e a lentidão excessiva para terminar lições simples persistem por dois ou mais bimestres seguidos, mesmo com a rotina de sono e horários regularizada.
Quando buscar ajuda
Se a dificuldade escolar persiste após os ajustes de rotina e gera frustração constante, o suporte profissional ajuda a identificar a raiz do problema sem rótulos precipitados.
O acompanhamento em neuropsicologia foca no desenvolvimento e na reabilitação de funções executivas, organizando estratégias práticas de estudo, foco e memória de trabalho. Em paralelo, a terapia infantil presencial em São Paulo acolhe a insegurança e o desgaste emocional que as cobranças escolares despertam na criança. Para jovens, a terapia para adolescentes por videochamada apoia a lidar com a pressão dos estudos e a construir autonomia. Se a rotina de lição de casa virou motivo diário de desgaste, você pode agendar uma conversa inicial para avaliarmos juntos as necessidades do seu filho.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui uma avaliação psicológica individual. Em situações de urgência, procure atendimento presencial, o CVV (188) ou o SAMU (192).