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Diagnósticos de autismo e TDAH: por que aumentaram

13 de agosto de 2026 · Bruna Rocha

Quem tem filho na escola hoje ouve nomes que não circulavam na geração anterior: autismo, TDAH, dislexia. A impressão de que tudo virou sigla é comum, e quase sempre vem junto a mesma pergunta. Está nascendo mais criança com autismo e TDAH ou a gente só passou a reparar? Os números confirmam o aumento: pelo Censo Escolar do Inep, as matrículas de estudantes com transtorno do espectro autista na educação básica passaram de 294.394 em 2021 para 1.298.637 em 2025.

O que os números realmente contam

O Censo Escolar conta matrículas, não crianças. E o Censo Demográfico do IBGE, que em 2022 investigou o autismo pela primeira vez, perguntou a cada morador: “Já foi diagnosticado com autismo por algum profissional de saúde?”. A resposta foram 2,4 milhões de pessoas, 1,2% da população, perto da estimativa da Organização Mundial da Saúde, de 1 em cada 127 pessoas.

Repare no que a pergunta mede: diagnóstico declarado, não a existência da condição. Os dois levantamentos registram quem já foi identificado, e quem nunca chegou a um profissional não aparece em nenhum deles.

Mais diagnósticos não quer dizer mais crianças

Dá para medir as duas coisas separadamente, e já mediram. Um estudo publicado no BMJ em 2015 acompanhou mais de um milhão de crianças nascidas na Suécia e comparou duas curvas ao longo de dez anos: a frequência dos sintomas de autismo na população, medida por entrevistas com as famílias, e o número de diagnósticos registrados no sistema de saúde. A primeira ficou estável. A segunda subiu de forma contínua. A conclusão dos autores é direta: o que mudou foram fatores administrativos e de classificação, não a origem do quadro.

No TDAH, a resposta é ainda mais clara. Uma revisão publicada no International Journal of Epidemiology reuniu 135 estudos feitos ao longo de três décadas. O ano em que cada pesquisa foi feita não explicou a variação entre os resultados: o que explicou foram os critérios adotados e o método de coleta. Quando o método se mantém constante, a prevalência de TDAH em crianças não aparece crescendo.

O que mudou de verdade

Três coisas ajudam a explicar o gráfico. A primeira é de classificação: os critérios foram revistos e ampliados ao longo dos anos, e quadros que antes recebiam nomes separados passaram a ser lidos dentro de um mesmo espectro. A segunda é a escola. Ao comentar o salto nas matrículas, o diretor de Estatísticas Educacionais do Inep afirmou que elas aumentaram porque “a escola passou a identificar mais essa característica”. A terceira é que o Brasil não contava: a pergunta sobre autismo só entrou no Censo em 2022, por determinação de uma lei de 2019. É difícil afirmar que algo aumentou quando nunca tinha sido medido.

A pista que está na tabela de idades

O diagnóstico declarado de autismo aparece em 2,6% das crianças de 5 a 9 anos, cai para 1,3% entre 15 e 19 anos e fica entre 0,8% e 1,0% em toda a vida adulta. O autismo não desaparece aos 20 anos. Essa curva mostra uma geração de adultos que cresceu sem nunca ter sido avaliada, descrita na infância com outras palavras: o quieto, o difícil, o desligado. Na mesma tabela, entre meninos de 5 a 9 anos o diagnóstico declarado chega a 3,8%, contra 1,3% entre as meninas.

E o excesso de diagnóstico, existe?

Reconhecer que a alta se explica por identificação não é dizer que todo diagnóstico está bem feito. Uma revisão publicada no JAMA Network Open em 2021 analisou 334 estudos sobre TDAH e chegou a uma conclusão de duas pontas: há um contingente de crianças com o quadro que segue sem diagnóstico, e há também evidência de sobrediagnóstico e de excesso de tratamento nos casos mais leves, em que os possíveis danos podem superar os benefícios.

As duas coisas convivem: criança que precisa e não chega, criança que recebe um nome apressado. Nenhuma delas se resolve negando o problema inteiro.

O que um diagnóstico sério exige

O que separa uma avaliação cuidadosa de um carimbo é o processo. No TDAH, a Sociedade Brasileira de Pediatria resume os critérios: os sinais precisam aparecer em dois ou mais ambientes, já existir antes dos 12 anos e, principalmente, causar prejuízo real no aprendizado, nas amizades ou no bem-estar. A mesma entidade afirma que nenhum exame ou teste psicológico fecha o diagnóstico sozinho: ele é clínico e envolve mais de um profissional.

Nenhum sinal isolado fecha um diagnóstico. É o conjunto, ao longo do tempo, e o quanto aquilo atrapalha a vida da criança.

Quando buscar ajuda

O nome não é o objetivo. Ele serve para definir que apoio ajuda aquela criança específica, na escola e em casa. Se o seu filho vem sofrendo e você não sabe bem por quê, conversar com um profissional ajuda a organizar o que está acontecendo. O trabalho de reabilitação neuropsicológica acompanha habilidades como atenção, memória de trabalho e organização, e a terapia infantil com abordagem TCC trabalha essas estratégias junto com a família. Quando uma avaliação formal com instrumentos se mostra necessária, ela é feita por profissional habilitado, por meio de encaminhamento. Os sinais de TDAH na infância e a diferença entre altas habilidades e TDAH têm textos próprios aqui no blog. Para conversar sobre o momento do seu filho, é possível agendar uma conversa.


Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui uma avaliação psicológica individual. Em situações de urgência, procure atendimento presencial, o CVV (188) ou o SAMU (192).

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A primeira conversa é um momento para nos conhecermos, entender sua demanda e alinhar o caminho terapêutico com leveza e cuidado. Para crianças e adolescentes, o contato é feito com a família.

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