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Pais e telas: o exemplo que os filhos seguem em casa

8 de julho de 2026 · Bruna Rocha

Quando o assunto é tela, a conversa da família costuma mirar no filho: quanto tempo ele passa no celular, o que assiste, como tirar o aparelho da mão dele. No post sobre redes sociais e autoestima na adolescência, uma das orientações era justamente “dar o exemplo”. Este texto é sobre essa parte, que costuma ser a mais desconfortável. O guia Crianças, Adolescentes e Telas, publicado pelo Governo Federal em 2025, é direto: os padrões de uso de telas dos adultos da casa são aprendidos e repetidos pelas crianças e pelos adolescentes. Antes de olhar para a tela do filho, vale olhar para a nossa.

Filhos fazem o que veem

Criança aprende menos pelo que escuta e mais pelo que observa todos os dias. Segundo o mesmo guia federal, o uso equilibrado pelos filhos depende, antes de tudo, do uso moderado dos adultos com quem eles convivem. Estudos citados pelo documento associam o uso excessivo de telas pelos adultos da família (em especial durante as refeições e dentro do quarto) a mais tempo de tela dos adolescentes e ao uso problemático de redes sociais, jogos e celular. Cobrar o que não se pratica, além de tender a funcionar mal, enfraquece a regra: o filho percebe a incoerência antes mesmo de saber nomeá-la.

O que a ciência observa quando o celular entra na cena

Existe até nome para isso: technoference, as interrupções que o celular provoca nas interações entre pais e filhos (também chamada de phubbing parental). Em um estudo publicado na revista Pediatrics, pesquisadores observaram 55 cuidadores comendo com crianças pequenas em restaurantes: 40 deles usaram o celular durante a refeição, e os mais absortos no aparelho tendiam a responder de forma mais ríspida às tentativas de contato das crianças. Ninguém vira um pai ou uma mãe pior por checar uma mensagem. O que a pesquisa aponta é o efeito do padrão repetido, não do episódio isolado.

Nos primeiros anos, atenção é alimento

O cérebro nos primeiros anos se constrói nas interações de “ida e volta” com quem cuida: o bebê balbucia, aponta ou chora, e o adulto responde com olhar, palavra ou colo. Segundo o Center on the Developing Child, da Universidade Harvard, quando essas respostas faltam com frequência, a arquitetura cerebral em formação pode ser prejudicada. Um experimento publicado na revista Developmental Psychology ilustra bem: crianças de 2 anos aprendiam uma palavra nova ensinada pela mãe, mas não aprendiam quando uma ligação de celular interrompia o momento, mesmo ouvindo a palavra o mesmo número de vezes. Na mesma linha, a Organização Mundial da Saúde recomenda evitar telas antes dos 2 anos e lembra que ler, contar histórias e cantar junto valem muito mais para o desenvolvimento do que qualquer aplicativo.

O efeito espelho no adolescente

Com adolescentes, o espelho continua. Uma meta-análise de 2025, publicada no Journal of Medical Internet Research com 53 estudos e mais de 60 mil participantes, encontrou uma associação consistente: quanto mais o celular dos pais interrompe a relação, mais o filho tende ao uso problemático de telas. Associação não é sentença (cada família tem sua história), mas o clima da casa pesa: é difícil sustentar um combinado sobre celular à mesa quando o adulto é o primeiro a quebrá-lo.

Sem culpa: por que acontece com quase todo mundo

A intenção aqui não é apontar o dedo. A Sociedade Brasileira de Pediatria reconhece que muitas vezes as telas preenchem lacunas de pais ocupados, estressados ou cansados demais, e os aplicativos são desenhados para prender a atenção de qualquer pessoa, em qualquer idade. Perceber o próprio hábito é o primeiro passo, não um motivo de vergonha. E vale a mesma régua que usamos para os filhos: nenhum episódio isolado define nada. O que importa é a frequência, a intensidade e o quanto isso vem atrapalhando o cotidiano da relação.

Combinados que valem para a família inteira

Regras construídas para todos costumam funcionar melhor do que proibições que valem só para os menores. A SBP e o guia federal convergem em recomendações simples:

  • Refeições sem telas, inclusive para os adultos. A mesa é dos momentos mais fáceis de proteger.
  • Desconectar 1 a 2 horas antes de dormir, todo mundo. Protege o sono da casa inteira.
  • Notificações desligadas nos momentos juntos. Reduz a tentação sem depender de força de vontade.
  • Regras combinadas em família. Quando o adulto também segue, o combinado deixa de ser castigo e vira cultura da casa.

Mais do que cronometrar o próprio uso, vale se perguntar: quando meu filho fala comigo, o que ele encontra: meus olhos ou a minha nuca atrás do celular?

Quando buscar ajuda

Se o uso de telas virou fonte constante de conflito em casa, ou se você sente que o próprio hábito vem atrapalhando a relação com seu filho, conversar com um profissional ajuda a reorganizar a rotina sem briga e sem radicalismo. Esse é um tema frequente na terapia infantil e na orientação a pais e, no caso dos mais velhos, na terapia para adolescentes. Se fizer sentido para a sua família, agende uma conversa.


Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui uma avaliação psicológica individual. Em situações de urgência, procure atendimento presencial, o CVV (188) ou o SAMU (192).

Primeiro contato

Vamos conversar?

A primeira conversa é um momento para nos conhecermos, entender sua demanda e alinhar o caminho terapêutico com leveza e cuidado. Para crianças e adolescentes, o contato é feito com a família.

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